Nos Passos de Fiszel Czeresnia (Por Paulo Caldas)

Fernando Dourado Filho. Foto; divulgação

São incontáveis os livros que enfocam a trajetória do autor. Textos memorialistas familiares, autorreferentes, espécies de odisseia de uma vida bem sucedida, seja no universo dos negócios ou a narrativa de currículos vitoriosos de um magistrado ou profissionais outros, Narcisos sem espelho, que tecem arrazoados cabotinos publicados quase sempre com títulos de parca imaginação. Existe até quem prefira relatos turísticos com abordagens superficiais vistos pelos olhos da vaidade

Todavia, quem tiver nas mãos “Nos passos de Fiszel Czeresnia”, vai encontrar um texto légua e meia distante desses exemplos citados. O livro, de autoria do pernambucano radicado no mundo Fernando Dourado Filho, não obstante conter narrativas de fatos vivenciados pelo autor, mostra pelo seu olhar arguto, como define a orelha assinada pelo cientista político Luiz Felipe D’Ávila, as experiências de um garoto que cumpriu temporadas de estudos na Europa e que, aos 20 anos, já visitara trinta países e falava cinco idiomas.

As crônicas, narrados na perspectiva da primeira pessoa, técnica que seduz o leitor para o interior das cenas, acompanharam o amadurecimento do escritor e seu caminhar profissional por alguns dos 160 países visitados, aferindo usos, costumes, gostos e preferências, muitas dessas análises descritas em centenas de artigos sobre o tema.

Fernando Dourado escreveu o que realmente vivenciou, passo a passo, até pisar nas pegadas do amigo-herói Fiszel Czeresnia, a partir de Stopnica na sofrida Polônia. Enumerar aqui os países, paisagens, fatos significativos, seria tirar do leitor o gosto de caminhar com o autor página por página, compartilhando particularidades de Angola ao Peru, do Paquistão ao Quénia, de Paris a Garanhuns, o berço, onde aceitou cumprir a saga das Letras.

Do ponto de vista da estética, o livro mostra invejável riqueza vocabular, destreza no manejo das metáforas, alegorias e cuidados com as minúcias na descrição dos personagens, detalhes que passariam ao largo não fosse Fernando Dourado Filho possuidor de vastos recursos narrativos, sabedor que a literatura esconde as nuances para que o leitor sutilmente as descubra.

O roteiro da obra faz das cenas espécie de estações de uma ferrovia imaginária, de paradas agradáveis, de peculiaridades exibidas naturalmente, trazendo de forma subliminar seus caracteres antroplógicos, sociológicos, de psicologia social e políticos.

Cabe uma singela critica ao uso de palavras em idiomas menos conhecidos, o que aqui e ali impele prospectar dicionários. Outro pequenino reparo recai no emprego continuado de pronomes em pequenos trechos da narrativa, algo que por certo não tira o brilhantismo de uma obra bem feita, de conteúdo maduro e técnica requintada.

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