Inovação precisa de problema

Falante e entusiasmado, o presidente do C.E.S.A.R. e do Conselho da Amcham-Recife Sérgio Cavalcante não se restringiu nesta entrevista a Cláudia Santos e Rafael Dantas a fazer comentários sobre o mundo digital. Ele opinou a respeito de soluções urbanas para o Bairro do Recife, criticou o modelo do ensino médio e a passividade do brasileiro na identificação e resolução de problemas.

O mercado de TI resistiu à crise?
O setor tem uma vantagem: mesmo com a crise, ele resolve deficiências das empresas que desejam aumentar sua automatização, melhorar seus processos e sua produtividade através da informática. É normal que não deixem de investir em TI. O setor também acessa o mercado internacional melhor do que outras áreas. O fato do dólar ter subido muito facilita a exportação de produtos, softwares e serviços. Mas é claro que a crise nos atingiu. No caso do C.E.S.A.R., a gente não diminuiu o faturamento, mas também não cresceu. Antes, crescíamos 16% ao ano. No ano passado, faturamos cerca de R$ 81 milhões. Este ano estimamos crescer 10% em relação a 2016.

Qual o tamanho do mercado de TI?
Segundo o Porto Digital, o ecossistema de TI daqui tem 280 empresas, cerca de 8.500 pessoas trabalhando. O faturamento conjunto é de R$ 1,4 bilhão.

Como está a relação do setor com outros setores de Pernambuco?
O relacionamento vem melhorando bastante. O C.E.S.A.R. tinha poucos clientes do Nordeste. Praticamente 100% do que faturamos vem do Sul, Sudeste e exterior. A relação que temos aqui é mais acentuada na área de empreendedorismo (por meio da nossa aceleradora) que em projetos diretos com as empresas. O volume financeiro é pequeno, mas as empresas de Pernambuco solicitam muito mais o C.E.S.A.R. hoje do que no passado.

Isso reflete alguma dificuldade de o empresariado local ser inovador?
Dependendo do setor em que você está trabalhando, sim. Acho a economia de Pernambuco, ou pelo menos a economia que se apresenta para nós do C.E.S.A.R., muito focada em commodities, ou seja, não é a nova economia.

Como está o financiamento das startups?
O C.E.S.A.R. Labs é a nossa aceleradora. Criamos mais de 40 empresas no decorrer desses 21 anos. Mas existe um gargalo de financiamento. Se chegar a nós uma boa solução, a gente tem recursos para criar o protótipo para acelerar o primeiro Mínimo Viável Produto (MVP). Mas, e depois que a empresa estiver dando certo e precisar de R$ 10 milhões? Esse investimento não aparece. Mesmo na faixa inicial de R$ 2 a 3 milhões precisamos ter mais geradoras de fundo. Além do C.E.S.A.R. Labs, existe a Jump, do Porto Digital, e um movimento chamado Manguezal, que tem cerca de 60 startups envolvidas. A gente precisa dar vazão a isso.

Para ter acesso aos investimentos é preciso ter uma estrutura básica de gestão? 
Sim. O problema é que as startups acham que basta ter uma ideia, que tudo vai correr bem. Não focam em quem é o seu cliente potencial, nem conversam com ele para saber se tem sentido o produto a ser criado. Por isso, no evento C.E.S.A.R Open Labs a gente recebe, uma vez por mês, pessoas que querem abrir uma startup e damos um treinamento mínimo de design centrado no usuário. A maioria das aceleradoras pensa que basta fazer um edital de aceleração e vai chegar um conjunto gigante de boas soluções. Em dois anos e meio, o C.E.S.A.R. recebeu 416 propostas de startups. Aceitamos 8.

Como você analisa a influência do Porto Digital na revitalização do Bairro do Recife?
Há uma revitalização, claro que uma boa parte é feita pelo governo, mas também teve contribuição de empresas privadas. A gente, de certa forma, influenciou na instalação de restaurantes, bares e novos serviços no bairro. Estão previstos hotéis a serem construídos, a marina do outro lado da ponte giratória, o centro de convenções. Um espaço que gostaria muito de integrar ao nosso ecossistema é o Porto do Recife. Não tem sentido aqueles locais existentes no porto para armazenar gasolina, porque se aquilo pegar fogo vai provocar uma explosão, como já aconteceu.

Qual seria a alternativa?
Essa ilha (Bairro do Recife) tem cerca de 100 hectares. Não sei dizer o espaço que o porto usa, mas vamos supor que seja 60 hectares públicos (da sociedade), e 40 fechados. Se com 60 já está sendo feito tudo isso, com 40 livre dá para fazer muita coisa. Eu investiria em residências. O que está faltando no bairro hoje é gente morando. Mas tem tanta coisa legal que poderia ser feita. Por exemplo: temos muito tubarão aqui, por que não fazemos um oceanário no porto para ver os tubarões? Por que o Museu de Oceanografia da UFPE não está na ilha? Por que as fragatas não chegam por aqui? O tráfego de carros poderia deixar de ser feito na ilha. Isso aqui tem o potencial de irradiar para outros lugares o modelo de como pode ser uma cidade. Vamos fazer uma ação no C.E.S.A.R. para que as pessoas se sintam parte da mudança, incentivando a cidadania, o respeito no trânsito, a acessibilidade no Bairro do Recife, para torná-lo um ambiente saudável para a população. Para que as pessoas voltem para seus bairros e queiram reproduzir essas mudanças. Vou conversar com outras empresas para engajá-las também. Ou a gente muda o Brasil, ou a gente se muda do Brasil. Sabe quantas pessoas que se demitiram do C.E.S.A.R. e vão morar no exterior? São 33%, um número alto. Mas achar que o País não tem jeito é muito fácil.

Essa é uma da causas da evasão do capital humano em TI?
A gente precisa de mão de obra qualificada. Esse é o propósito da Faculdade C.E.S.A.R. As faculdades em geral visam ao campo da pesquisa ou das habilidades teóricas para o mercado e não oferecem bagagem técnica aliada à proatividade. Acho que isso se deve ao modelo educacional brasileiro. Eu ensino na faculdade desde 1990. O sistema quer incutir nos alunos o método em que o discente apenas se limita a aprender e despende todo seu tempo e disposição em absorver as orientações e não se permite questionamento para tirar suas conclusões. Esse modelo torna o estudante passivo e vem do ensino médio. O ensino fundamental tem aula de teatro, robótica, treinam o aluno para pensar. Mas, foram enchendo o ensino médio de muito conteúdo. Os alunos estudam muito, mas apenas engolem a informação, não têm tempo de tirar suas próprias conclusões. Ele se torna um estudante passivo e vai se tornar um profissional passivo. A faculdade não deve perpetuar esse modelo, do contrário acarretará em uma formação de profissionais despreparados.

Como está sendo o trabalho na Amcham para melhorar o ambiente de negócios no Recife?
Existe o Programa Mais Competitividade Brasil na Amcham-Brasil, que estabelece focos a serem trabalhados como norte. Aqui, desenvolvemos o Mais Competitividade Recife, focando na cidade. As questões estão sendo trabalhadas pelos comitês estratégicos. O comitê estratégico jurídico, por exemplo, se engajou em propostas de leis para agilizar a abertura de empresas, que hoje leva um tempo gigante. Tornar a banda larga mais confiável a preços competitivos ficou a cargo do comitê estratégico de tecnologia da informação. O comitê estratégico business affairs trabalha numa estratégia para toda a cidade e conecta os demais comitês. Há pessoas do governo hoje estudando os problemas junto com a gente, problemas do empresariado que o governo pode resolver e vice-versa. Em relação à banda larga, trouxemos o presidente da Embratel, José Formoso, para identificar como melhorar essa questão e vamos entrar em contato com outras operadoras. Temos muitos clientes americanos e europeus e demandamos muitas vezes videoconferências. A latência (o tempo que a informação leva para chegar até lá) é longo para fazer uma chamada de qualidade. Se for para a Costa Oeste Americana ou para a Europa, a maioria dos cabos submarinos passa por Miami e nesse lugar tem um gargalo gigante de 300 milhões de cabos marinhos chegando por lá. Então atrasa muita coisa.

Como você vê a inserção do Brasil na nova economia?
O Brasil nem arranhou a nova economia. Precisamos nos mover ainda mais. O brasileiro é criativo, mas não inovador.

Qual a diferença?
Você pode usar sua criatividade para alguém que deu um problema para você solucionar. Mas eu quero saber do brasileiro que vai encontrar o problema – isto é identificação das oportunidades – e buscar a solução, isto é ser proativo. Se alguém lhe entrega um problema, o brasileiro dá soluções fantásticas. Mas as empresas brasileiras são muito mais cópias do que criativas, porque não precisam ser inovadoras, já que o mercado é fechado e a inserção de empresas estrangeiras se torna difícil. Isso tolhe a inovação e a criatividade. Há quanto tempo a gente conhece a seca do Nordeste? Desde séculos atrás. Mas de onde vem os equipamentos de irrigação? De Israel. Desde quando Israel existe? Há 69 anos. Por que a gente não resolveu? Estamos no melhor lugar do mundo para inovar. Inovação precisa de problema e isso a gente tem bastante. O que fazer para despoluir o Rio Capibaribe de forma barata? O que fazer para mudar o trânsito de forma diferente? Além dos problemas atuais, terão os futuros e aí você deve se preparar para o que vai acontecer. Para isso é necessário planejar e criar os cenários. A gente não planeja nada. Quando nos damos conta, o bonde já passou. Eu quero é ajudar a construir o bonde.

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