Componho o que ouço do povo

Piera Lobo/Algomais

Se você é um folião certamente já brincou ao som de um frevo composto por J. Michiles. Nascido José Michiles da Silva, o autor de Bom Demais, Me segura senão eu caio e Diabo Louro fala nesta entrevista da sua trajetória musical, que curiosamente começou criando uma versão dos Beatles para o grupo Golden Boys.

Você sempre viveu no bairro de Campo Grande?
Sou recifense e sempre morei em Campo Grande e arredores (Arruda, Água Fria, Sítio Novo). Quando menino ouvia no rádio os grande autores pernambucanos, como Levino Ferreira, Zumba, Capiba, Nelson Ferreira. Também ouvia Jackson do Pandeiro, Ari Lobo, Luiz Gonzaga. Desde cedo que eu me abri para essa imagem que é a música pernambucana. E já escrevia paródias.

Você é sobrinho do cantor Orlando Dias, ele também o influenciou?
Ele foi intérprete de grandes sucessos nos anos 60. Cantor romântico. A mãe dele minha avó já cantava, a família toda tem veia artística, tanto é que a gente seguiu esse caminho da arte de compor e de cantar. Eu tenho um neto que é um sucesso, Víctor Santos, que também vem dessa estirpe de grandes autores e cantores.

Além de compositor, você também foi professor. Como foi essa experiência?
Fiz história na Católica e fui professor de história, matéria que cheguei a ensinar durante um ano. Mas antes de terminar o curso eu já ensinava artes plásticas, pintura, modelagem no barro. Fiz um curso técnico de desenho na antiga Escola Industrial Governador Agamenon Magalhães. Passei a lecionar em 1962 nessa mesma escola, como assessor do grande escultor Edson de Figueiredo, que foi professor também de Abelardo da Hora.

Seu primeiro sucesso foi uma versão dos Beatles. Como foi esse início?
Cheguei no Rio de janeiro, no dia 2 de janeiro de 1964, depois de 7 dias de viagem. Foi uma viagem histórica: não havia asfalto, tínhamos que descer para quebrar galho de mato, escorar pneu, empurrar o ônibus (risos). Meu tio Orlando Dias morava lá. Naquele ano fiz um bolero que foi gravado pelo cantor Víctor Bacelar. Dois anos depois, o grupo vocal The Golden Boys, gravou a versão que fiz da música I want to hold your hand (Quero afagar tuas mãos) pela etiqueta Odeon e foi um grande passo na minha carreira. Deu até pra ganhar um dinheirinho bom.

Como conheceu os Golden Boys?
Meu tio era amigo desse pessoal, que morava no Méier, o mesmo bairro onde meu tio residia. Dois anos depois, teve um festival aqui intitulado Uma canção para o Recife, no qual concorri com grandes mestres da música pernambucana – Capiba, Nelson Ferreira, Ariano Suassuna, Luiz Bandeira – e para a minha felicidade ganhei o primeiro lugar com a música Recife manhã de sol, gravada com Marcos Aguiar, grande cantor pernambucano. Depois essa marcha foi regravada por Orlando Dias, Bloco da Saudade, Roberto Miller. No meu CD Asas do Frevo, uma coletânea, lançada em 2007, por ocasião do centenário do frevo, gravei com Maria Bethânia, que fez uma interpretação sublime. Um mês depois ela veio ao Recife, fazer um show no Classic Hall, e me convidou. Ela terminou a apresentação com uma homenagem cantando Recife manhã de sol. Eu nem ia no camarim, porque havia uma multidão por lá. Telefonei para a empresária dela e disse: olhe, diga a Maria Bethânia que eu estou muito agradecido pela homenagem e que deixei um cheiro pra ela. A empresária disse: “não, senhor, ela está te esperando”. Fui ao camarim, abriram caminho pra mim, quando ela me viu disse: “Michiles que coisa linda você me deu!”. Eu disse linda é você com sua interpretação sublime. Nesse CD também tem Daniela Mercury, Chico César, Alceu Valença.

Bom demais foi seu maior sucesso?
Um dos maiores. Bom demais, gravado em outubro de 1985 para o Carnaval, com interpretação de Alceu Valença. No Réveillon de 1986, Alceu me telefonou, dizendo: “Tás ouvindo? Todas as emissoras tocando o frevo?” Na quarta-feira de cinzas, às 5 horas da manhã, comprei o Jornal do Commercio que trazia estampada a manchete: “Carnaval foi bom demais”, porque só deu Bom demais. Um frevo antológico que já perdura por vários carnavais. Me segura senão eu caio, de 1987, também ficou na história. Depois veio o Diabo louro, que é sucesso até hoje, depois veio Vampira. São frevos cinematográficos: “Levei um trote em plena multidão/ ela me deu um bote/ bem no meu cangote/ e me botou no chão/ naquele alvoroço, mordeu meu pescoço/ parece mentira aquele beijo/ foi um beijo de vampira. Esse frevo eu criei em pleno sábado de Carnaval, estava na sacada do restaurante Mourisco, em Olinda. Lá embaixo a multidão esvoaçada no frevo e, de repente, uma moça deu um bote no pescoço de um cara, caíram os dois no chão. Ele se levantou procurando a moça, mas ela já tinha ido embora. Eu disse: acabo de assistir a um beijo de vampira. Aí, me sentei e comecei a escrever a música.

Qual o segredo de suas canções serem sucesso?
Sempre digo o seguinte: o difícil é fazer o fácil. O fácil é aquela música que você faz e o povo na primeira audição sai cantarolando. É a música que fica. Esse é o grande tempero. Sou um autor que compõe o que ouço do povo. A emoção que eu sinto do povo eu devolvo ao povo. O gratificante é fazer a sua música na sua intimidade, na sua solidão e de repente ver cair na boca do povo, 1,5 milhão de pessoas cantando sua música no Galo da Madrugada! Além frevo, também compus forró. Elba Ramalho gravou Lua Vadia, gravei com Dominguinhos Estrela Gonzaga, homenagem a Luiz Gonzaga. O primeiro grande sucesso de Novinho da Paraíba foi um forró meu. Com Jorge de Altinho gravei Queimei seu travesseiro.

Você vive da sua música?
O compositor é sempre garfado, se eu for viver só de música estou roubado. Sou aposentado pela Secretaria de Educação como professor. Eu lecionei 31 anos em sala de aula. Depois participei da campanha de Joaquim Francisco e fiz o jingle da campanha dele. Ele ganhou de Jarbas, que estava à frente das pesquisas, também com um jingle meu. Olha que loucura! (risos).

Como assim?
Na eleição de 1990 fiz o jingle de Jarbas, que estava na frente disparado nas pesquisas. Aí, eu arenguei com Cadoca, que era coordenador da campanha, e saí da campanha. Mas minha música continuou tocando no guia. Antes eu havia telefonado para o coordenador da campanha de Joaquim, disse que eu tinha um frevo pra dele, mas disseram que já haviam feito toda a campanha. Não quiseram nem ouvir. Um dia, eles vieram me procurar e me acharam no Quatro Cantos, à meia-noite. O coordenador da campanha Roberto Viana disse “Viemos te procurar porque vai ter uma reunião na casa de Alceu para escolher a música da campanha”. Escolher? Eu disse. Me disseram que já tinham 10 músicas prontas, não quiseram nem ouvir meu jingle. Adverti que não poderia nem tirar a minha música que estava no guia de Jarbas. Bem, fui para a reunião na casa de Alceu no outro dia, onde estavam outros artistas. Cada um cantava uma música pra Joaquim e pediram minha opinião, eu disse: o guia de Jarbas tá pegando fogo com meu frevo e a gente tem que fazer uma coisa que realmente bata no povo. O mote da campanha de Joaquim era: Sou mais Joaquim. Eu já saí da reunião cantando: O povo tá na rua/ o Carnaval chegou/ com Joaquim nosso governador/ bateu em mim essa alegria/ no meio da massa gritando com raça/ sou mais Joaquim. Quando cheguei em casa, terminei em ritmo de lambada: o povo quer assim/ no balanço da lambada/ o povo quer Joaquim/ pra chegar na disparada. Quando mostrei o jingle eles endoidaram. Fui para o estúdio pra produzir a música. O guia começou a ter uma nova conotação e bombou. No penúltimo no comício em Rio Doce, Joaquim Francisco disse que as pesquisas mostravam que ele tinha ultrapassado Jarbas e estava 9% à frente. Aí Joaquim disse: “olha, Michiles, desses 9% você é responsável por no mínimo 6%”. No último comício, em Santo Amaro, ele nem conseguiu falar, porque todo mundo estava cantando o jingle. Cadoca passou mais de um ano sem falar comigo de cara feia (risos). Mas Jarbas, na campanha seguinte me chamou para fazer o jingle dele, eu fiz e ele ganhou. Bem, quando Joaquim ganhou, ele me tirou de sala de aula, fui ser assessor dele. Na campanha seguinte Jarbas me chamou, eu fiz o jingle dele e passei mais oito anos no governo.

Como você está se sentindo sendo homenageado pelo Galo?
É muito bom ser reconhecido por um bloco que é o maior do planeta, acho que é uma homenagem planetária (risos). Estou agora procurando apoio pra o meu novo CD ou DVD: J. Michiles, 50 anos de folia. Estou correndo atrás de um patrocínio há mais de um ano. É um CD com músicas inéditas e convidados ilustres, como Chico César, Caetano, Alceu Valença, Elba Ramalho, Fafá de Belém, Silvério Pessoa, Almir Rouche.

Você é casado?
Fui casado com Conceição, tenho três filhos, Michele Assunção que é jornalista, Cesar Michiles, que é o flautista e produtor musical de Geraldo Azevedo e Natália, mãe de Victor Santos. Hoje moro com Diabo Louro, (Etiene Barros) minha atual mulher há 25 anos. Ela foi a minha musa na música que fiz. Eu a chamava: venha cá meu diabinho. (risos)

O que poderia ser feito para que tocasse o ano todo nas rádios e não apenas no Carnaval?
Acho que é necessário um apoio governamental que vai incentivar a tocar o frevo sempre nas emissoras. Um tempo atrás, ao meio-dia, tocava frevo em todas as rádios. Tínhamos um festival instituído por lei municipal que deixou de ser feito há três anos, o que é uma coisa lamentável. São os festivais que dão oportunidades, descobrem novos valores, incentivam a nova geração. Só precisa divulgar o frevo, principalmente agora que ele é um patrimônio da humanidade. O que caracteriza o frevo pernambucano é justamente o contratempo de suas frases rítmicas. Por exemplo: Eu tenho mais que tá nessa/ fazendo mesura na ponta do pé/. Esse mastigado de frases é o que caracteriza o frevo. Uma vez Alceu fez um frevo: pra começar eu vou te amar o ano inteiro de janeiro a janeiro. Aí eu disse: pra começar não é frevo, é um dobrado. Ele arretou-se. Expliquei: olha, Alceu, toda obra musical tem sua própria construção rítmica, já nasce daquela maneira. Você jamais vai transformar uma marcha rancho, como a mesma praça/ o mesmo banco/ as mesmas flores/ o mesmo jardim num frevo, cantando a mesma letra em ritmo de frevo. Não é o andamento para mais ou para menos que vai modificar.

Como surgiu a música Roda e avisa?
Encontrei no Conservatório de Música, Edson Rodrigues, que era professor de lá. “Michiles, vamos fazer uma homenagem a Chacrinha?” Aí ele cantou o mote: “roda, roda e avisa que a alegria foi pro beleléu”. Eu disse: beleléu não! Deixa comigo. Vim para casa e no outro dia mostrei a música pronta. O saudoso roqueiro Cazuza esteve numa rádio no Recife, quando tocou a música e disse que o palhaço da letra era ele. Há um verso na canção que diz: roda, roda que a vida é um sonho/ que vai terminar/ e o bom palhaço não chora/ vai embora sem explicar. Cazuza foi para a casa de Alceu e pediu que cantasse a música pra ele. Cazuza chorou, estava no final da vida. Soube que um motorista de táxi, quando ouviu a música pela primeira, vez também chorou. Acontece assim: a música de repente nasce e traz emoção.

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