Vítima, substantivo feminino (por Beatriz Braga)

“O estupro fica na vagina”. A frase escrita por Naomi Wolf ecoa repetidamente na minha cabeça. A cada duas horas e meia, uma mulher é vítima de estupro coletivo no Brasil, segundo dados revelados pela Folha de São Paulo no último domingo.

Os números são absurdos e eles ainda correspondem a uma pequena parte da realidade. Estima-se que apenas 10% dos casos de estupro sejam registrados (Ipea). Acima dos dados existe o medo, a vergonha e a lógica irracional de culpar a vítima. Acima do medo – e da certeza do silêncio – existem homens se reunindo com outros homens e devastando a vida de milhares mulheres.
No livro Vagina – uma biografia, de Wolf, a escritora discorre sobre o sistema nervoso feminino que, segundo sua pesquisa, liga o cérebro e a região genital de maneira mais intensa do que acontece com os homens. A vagina se conecta ao primeiro, impulsionando a liberação de substâncias que aumentam os níveis de percepção, confiança, autoestima e positividade, como dopamina e oxitocina, influenciando nossas atitudes.

Para a escritora estadunidense, o estupro tem muito mais a ver com poder do que com desejo sexual. A vagina vem sendo alvo de tortura durante séculos de repressão contra a mulher porque é um caminho eficiente para a morte do desejo, da criatividade e da voz de parte da população. Ela não é apenas um órgão sexual, mas um mediador poderoso de confiança e criatividade. É por isso que muitas culturas optam pela mutilação genital como forma de controle.

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Será que, nessa nova onda de empoderamento feminino em várias partes do mundo, veremos a violência contra a mulher aumentar como forma de retaliação? Segundo os novos dados do Ministério da Saúde, o estupro coletivo mais que dobrou nos últimos cinco anos.

Vamos às guerras, onde o estupro é prática corriqueira. No conflito de Kosovo, em 1998, estima-se que 20 mil mulheres foram estupradas. Ao contrário do que imaginamos, pouco tem a ver com desejos obscuros dos militares. Wolf fala sobre Serra Leoa, na África, onde soldados usavam objetos pontiagudos para destruir milhares de vaginas. Não havia nada de sexual ali.

“Você pode demonstrar seu poder sobre uma mulher de diversas formas que não incluem o sexo. Mas, se sua meta é quebrar psicologicamente, é muito mais eficiente praticar a violência contra sua vagina”, explica a escritora.

O ataque ao nervo pélvico é eficaz porque a agressão fica profundamente impressa no cérebro feminino. A vagina pode condicionar o resto do corpo e mente da mulher.

Penso em Mirella, jovem vítima de feminicídio pelo vizinho no Recife, e em todas as outras que vieram antes e ainda virão. Nas mulheres sem vaginas. Nas negras e pobres que não chegam às capas de jornais. Cada vez que uma mulher é estuprada, todas nós morremos um pouquinho.

Percebo-me andando com medo, passo apressado, desviando de tantos homens que passam por mim. Mexe com uma, mexe com todas. O estupro quebra, dentro da vítima, muito do que ela é. E quebra também todas nós, mulheres não tão distantes de Kosovo ou Serra Leoa.

Enquanto escrevo, os dados se repetem na minha cabeça: a cada 11 minutos alguma mulher terá sua vida devastada por um homem neste país (Ipea). Desejo muita força a cada uma. E muita coragem para romper o silêncio e entrar nas estatísticas. Quem sabe, aos poucos, os números falarão a nosso favor. Nesse mundo cruel, a dor faz companhia: nenhuma de nós estará só.

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*Beatriz Braga é jornalista e empresária (biabbraga@gmail.com). Ela escreve semanalmente a coluna Maria pensa assim para o site da Revista Algomais

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1 Comentário

Revista Algomais

29 de agosto de 2017 às 14:17

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