O dono da história (por Joca Souza Leão)

O dono da história é o contador da história. E o chato é o sujeito que interrompe o contador pra corrigir a história: “Não foi assim não. Nem foi com fulano, foi com beltrano.” Alguns não se contêm e dizem, até, “eu tava lá”. É de lascar! Além de chato, mentiroso. E mentiroso no mal, aliás, no pior dos sentidos, porque mentiroso no bom sentido é o contador de história que mente sem prejudicar ninguém, sem atrapalhar a história dos outros nem tirar vantagem alguma, além da admiração de todos pela sua narrativa. Mentira do bem só tempera e torna engraçada ou dramática história que era insossa, sem graça ou sem drama algum.

Toda cidadezinha do interior tinha (e algumas ainda devem ter, acho) as figuras oficiais, consagradas e reconhecidas por todos pelos seus feitos ou desfeitos, mandos ou desmandos: o doido, o bêbado, o carola, o herege, o profeta, o erudito, o filósofo, o vagabundo, o corno, o brabo, o valente, o frouxo, o ricão, o riquinho, o generoso, o vilão, o pedinte, o orador, o poeta, o mentiroso, o chato, o galã, a virgem, a viúva, o cantador e o contador de histórias.

Em Taperoá, sertão da Paraíba, terra de Ariano Suassuna, não ia ser diferente. Tinha de tudo. E o que não tinha, Ariano inventava. Ou aumentava. Chicó, mesmo, que ficou famoso como personagem do Auto da Compadecida, existiu de verdade.
Certa vez, quando Chicó, o de verdade, não o personagem, contou uma de suas histórias e finalizou, como sempre, com o “não sei, só sei que foi assim”, o chato oficial de Taperoá irrompeu da pequena plateia: “E eu só sei é que essa história não foi assim.” E tentou contar a sua versão. Chicó foi implacável. “Vocês preferem as minhas mentiras ou as histórias sem graça desse sujeito sem nenhuma imaginação?” Chicó foi aplaudido e o chato vaiado.

Certa vez, mal me comparando a Chicó (e bota má comparação nisso), eu ia contar uma história quando fui interrompido antes mesmo de começar, ainda na introdução. Quando disse que o Coronel Chico Heráclio tinha comprado a patente de coronel da Guarda Nacional, um dos ouvintes empeiticou: “Conheci o homem. E não é verdade. A patente de coronel não foi comprada coisa nenhuma. Foi conferida pelo povo de Limoeiro, em sinal de respeito.”

Alguma dúvida? Com a interrupção, minha história foi pro beleléu. E me obrigou a apelar pra única coisa que não se requer de um contador de história: a verdade verdadeira. “Senhor, na realidade, Chico Heráclio comprou sua patente de coronel por 90 contos de réis em 1920. Tá tudo na biografia dele, escrita por Reginaldo Heráclio.”

O fato verdadeiro, porém, é que minha história morreu de morte matada naquela noite, assassinada por um chato contumaz. Mas você, leitora, leitor, não merece o triunfo fugaz de um chato que interrompe histórias. Portanto, ei-la aqui:
Certa feita, apareceu por Limoeiro um camarada inteligente e bom de gogó que se elegeu vereador sem o apoio do Coronel Chico Heráclio. Na eleição seguinte, o nome dele nem apareceu na lista de candidatos.

– Esse aí era muito precoce.
– Precoce como, Coronel?
– Vereador com burrice de senador.

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