Manuel Bandeira: Reflexões ainda natalinas

Natal, em verdade, é uma data religiosa, embora para a maioria das pessoas seja apenas como um feriado que se comemora a cada 25 de dezembro. No Egito, onde se originou, celebrava o nascimento de Amon Ra, o Deus Sol, todavia no século III passou a ser utilizada pela Igreja na conversão dos povos pagãos subjugados pelos romanos. A partir daqueles dias, quase todos os povos, inclusive os não cristãos, comemoram o Natal, preservados costumes como a troca de presentes, a árvore, os cartões de boas-festas, a música e os enfeites, tudo coroado com a ceia natalina e o sorriso cativante do Papai Noel, essa figura que no imaginário das crianças lhes traz o tão desejado brinquedo.
Talvez seja por todo o seu encanto, que o Natal também desperta poesia. Como despertou esta: Espelho, amigo verdadeiro, / Tu refletes as minhas rugas,/ Os meus cabelos brancos, /Os meus olhos míopes e cansados / Espelho, amigo verdadeiro, | Mestre do realismo exato e minucioso,/ Obrigado, obrigado! /Mas se fosses mágico, /Penetrarias até ao fundo deste homem triste, /Descobririas o menino que sustenta esse homem, /O menino que não quer morrer, / Que não morrerá senão comigo. /O menino que todos os anos na véspera de Natal / Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

Essa poesia, Versos do Natal, foi composta em 1940, pelo então já cinquentenário Manuel Bandeira, um dos mais importantes poetas brasileiros de todos os tempos (Vou-me Embora pra Pasárgada, magistralmente parodiada por Jessier Quirino, é um dos seus mais famosos poemas). Foi com a voz do coração que Manuel Bandeira cantou a vida, a morte, o amor, o erotismo, a solidão, o cotidiano, a infância.
Nascido no Recife, em 19 de abril de 1886, cedo começou a escrever seus primeiros versos, sem cogitar ser poeta. Tanto que foi para São Paulo, estudar arquitetura, curso que veio a abandonar um ano depois, por haver contraído tuberculose, a mais devastadora doença daquela época. Nascido de família abastada, no entanto, não teve dificuldade para buscar tratamento em estâncias climáticas de Teresópolis e Petrópolis, no Rio de Janeiro, e como não obteve êxito, partiu para a Suíça. Ali ele passou a conviver com o poeta francês Paul Éluard, que o colocou a par das inovações artísticas que vinham ocorrendo na Europa.
Àquela altura, a poesia começava a adquirir dimensão maior em sua vida. E ele passou a buscar saber mais, cada vez mais. Com Charles de Guérin conheceu as rimas toantes, e sob a influência de Apollinaire, Charles Cros e Mac-Fionna Leod, escreveu, em 1912, seus primeiros versos livres, sem sequer desconfiar que, anos depois, seria considerado o mestre do verso livre no Brasil.
Para chegar a tanto, o caminho foi atapetado por poesia de excepcional inspiração. Em 1917, lançou A Cinza das Horas, seu primeiro livro. Dois anos depois, Carnaval, e assim trilhou a estrada da consagração. Em 1921, conheceu Mário de Andrade, o pai do modernismo, e passou a colaborar com a revista Klaxon, inicialmente com o poema Bonheur Lyrique, enquanto para a Semana de Arte Moderna de 1922, enviou o poema Os sapos.
A obra de Manuel Bandeira adquiria a vastidão que a genialidade do artista merecia. A Cinza das Horas, Carnaval, Os Sapos, O Ritmo Dissoluto, Libertinagem, Estrela da Manhã, Crônicas da Província do Brasil, Guia de Ouro Preto, Noções de História das Literaturas, Lira dos Cinquent’Anos, Belo Belo, Mafuá do Malungo, Literatura Hispano-Americana, Gonçalves Dias, Opus 10, Itinerário de Pasárgada, De Poetas e de Poesias, Flauta de Papel, Estrela da Tarde, Vou-me Embora pra Pasárgada, Andorinha, Estrela da Vida Inteira, Evocação do Recife, Colóquio Unilateralmente Sentimental, falam por si.
No livro Libertinagem ele ironizou a própria tuberculose, com este diálogo imaginário:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três, trinta e três, trinta e três…
– Respire
– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Já em Evocação do Recife, ele revive a infância, descrevendo o Recife do fim do século 19, incorporando temas ligados à cultura popular e ao folclore. Você acha que parou aí? Enganou-se. Como biógrafo, ele escreveu para a livraria espanhola El Ateneo, sobre a vida de Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Castro Alves.
Para rádios e jornais de todo o Brasil, escreveu crônicas, especialmente sobre poesia. Foi professor de literatura do Colégio Pedro II e de literatura hispano-americana da Faculdade Nacional de Filosofia.
Teve livros publicados na Europa e Estados Unidos. Foi membro de Academia Brasileira de Letras, e não ficou só nisso, o que já seria bastante. Também foi tradutor. Verteu para o português Macbeth, de Shakespeare; La Machine Infernale, de Jean Cocteau; Juno and the Paycock, de Sean O’Casey; The Matchmaker, de Thorton Wilder; Mireille, de Fréderic Mistral; Don Juan Tenorio, de Zorrilla; Colóquio-Sinfonieta, de Jean Tardieu; Prometeu e Epimeteu, de Carl Spitteler; The Rainmaker, de N. Richard Nash; Der Kaukasische Kreide Kreis, de Bertold Brecht; O Advogado do Diabo, de Morris West; Pena ela ser o que é, de John Ford; Os Verdes Campos do Eden, de Antonio Gala; A Fogueira Feliz, de J. N. Descalzo; e Edith Stein na Câmara de Gás, de Frei Gabriel Cacho.
Mais do que traduzir obras literárias, no entanto, Manoel Bandeira soube traduzir as dores e os amores que fazem a eterna contradição de Eros e Thanatos. A propósito, fique com Estrela da Tarde, uma das suas obras imortais;
A vida/ Não vale a pena e a dor de ser vivida/ Os corpos se entendem mas as almas não. /A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. /Vou-me embora pra Pasárgada! /Aqui eu não sou feliz. / Quero esquecer tudo: / A dor de ser homem… / Este anseio infinito e vão / De possuir o que me possui. / Quero descansar / Humildemente pensando na vida e nas mulheres / que amei… / Na vida inteira que podia ter sido e que não foi. / Quero descansar. / Morrer. / Morrer de corpo e de alma. / Completamente. (Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.) / Quando a Indesejada das gentes chegar / Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, / A mesa posta/ Cada coisa em seu lugar.
A Indesejada das gentes chegou em 13 de outubro de 1968 e nos levou Manuel Bandeira. Ou melhor, roubou-nos o menino que não quer morrer, aquele menino que, todos os anos, na véspera de Natal, punha seus chinelinhos atrás da porta. Aquela criança que morava no coração do poeta estava com 82 anos de idade.

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