A estrela da tarde (por Marcelo Alcoforado)

À tarde, uma moça bonita atravessava a rua e de um banco da praça Maciel Pinheiro se punha a contemplar a beleza em volta. Era uma praça bem cuidada e, o que era melhor, uma praça segura. Mas quem era aquela moça? Era Haia Pinkhasovna Lispector, uma ucraniana de família judaica fugida da Primeira Guerra Mundial. Aqui, no entanto, mudaria de nome, e com ele se tornaria famosa. Passaria a chamar-se Clarice. Clarice Lispector.

Nascida a 10 de dezembro de 1920, aqui chegou ainda bebê. Viria a ser uma das maiores escritoras latino-americanas, embora as comparações feitas com outros escritores sempre levassem em conta o mundo. Clarice Lispector era comparada a ninguém menos do que Virginia Woolf, James Joyce, Katherine Mansfield, Jorge Luís Borges, Juan Rulfo e Machado de Assis.

Aos 19 anos publicou o primeiro texto; o primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, aos 24, e dedicou a vida a produzir romances, contos, crônicas, cartas e entrevistas. Para o crítico literário português e professor de literatura brasileira Carlos Mendes de Sousa, a grandeza da sua obra é um leque de possibilidades de leitura.

Ela foi o primeiro escritor brasileiro a estampar a capa do suplemento dominical de livros do The New York Times, com uma resenha do volume The Complete Stories (Contos Completos), impondo-se registrar que os comentários do jornal derramam elogios ao volume com todos os contos publicados pela escritora. O texto chegou a brincar com a força da prosa daquela mulher. É melhor se aproximar com algum cuidado. “Para o leitor comum – ou seja, para a maior parte de nós -a imersão na mente fértil de Clarice Lispector pode ser uma exaustiva e até mesmo perturbadora experiência (…). Separe comida, água, um kit de primeiros socorros e muito protetor solar”, recomenda o autor da matéria.

Sem recomendar cautela, mas, pelo contrário, para que você se entregue ao texto de Clarice Lispector, escolha um destes. Ou, um a um, todos. Perto do Coração Selvagem (1944), O Lustre (1946), A Cidade Sitiada (1949), A Paixão Segundo G.H. (1964); Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres (1969); Água Viva (1973); A Hora da Estrela (1977); Um Sopro de Vida (Pulsações) (1978); Alguns Contos (1952); Feliz Aniversário (1960); Laços de Família (1960); A Legião Estrangeira (1964); Felicidade Clandestina (1971); A Imitação da Rosa (1973); A Via Crucis do Corpo (1974) Onde Estivestes de Noite (1974); De Corpo Inteiro (1975); O Mistério do Coelho Pensante (1967); A Mulher que Matou os Peixes (1968); A Vida Íntima de Laura (1974); Quase de Verdade (1978); Como Nasceram as Estrelas: Doze Lendas Brasileiras (1987).

Mas não parou aí. Postumamente, ela teve coligidos contos, crônicas e entrevistas tais como A Bela e a Fera (1979), conjunto de contos escritos em épocas diferentes; A Descoberta do Mundo (1984), seleção de crônicas publicadas em jornais de agosto de 1967 a dezembro de 1973; Como Nasceram as Estrelas (1987), contos infantis; Cartas Perto do Coração (2001), correspondência com Fernando Sabino; Correspondências (2002); Aprendendo a Viver (2004), seleção de crônicas publicadas em jornal de agosto de 1967 a dezembro de 1973; Outros Escritos (2005), – reunião de textos diversos; Correio Feminino (2006), conjunto de textos publicados em suplementos femininos de jornais, nas décadas de 1950 e 1960; Entrevistas (2007), seleção de entrevistas realizadas nas décadas de 1960 e 1970; Minhas Queridas (2007), correspondências; Só para Mulheres (2008), reunião de textos publicados em suplementos femininos nas décadas de 1950 e 1960; De amor e Amizade, crônicas para jovens (2010), seleção de crônicas publicadas e Todos os Contos, que reúne todos os contos escritos por ela.

Quer uma sugestão? Sente-se e leia Clarice Lispector. Sua obra já foi traduzida centenas de vezes e a cada dezembro, mês em que ela nasceu e morreu, muitos países, especialmente o Brasil, lhe rendem justas homenagens. Passaram-se 35 anos desde que ela se foi, mas a memória da sua arte continua viva.

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