Marcelo Alcoforado

Internet

Xô, cabileira

Houve um tempo - sombrio tempo, saliente-se - em que as paredes de Pernambuco eram tomadas pela mensagem Xô, cabilera, parida como que a fórceps, em português capenga e de gosto deplorável. Era endereçada ao candidato Marcos Freire, que, segundo indicavam as pesquisas, era o virtual vencedor da eleição que se avizinhava, para governador de Pernambuco. Era preciso derrotar o esquerdista Marcos Freire, pois, não importando os meios. Na guerra, tudo é válido, certamente avaliavam, para afastar qualquer resquício de consciência. A cada dia mais a luta se acirrava, como se fossem batalhas campais travadas no campo aberto da opinião. A indignidade, por seu turno, atingia o ponto de superlativa baixeza, ao se forjar o que buscava ser o flagrante de um encontro clandestino da esposa do candidato, dona Maria Carolina Vasconcelos Freire, com o então deputado federal Fernando Lyra, destacado membro do estado-maior da campanha do amigo Marcos Freire.…

Compartilhe

O homem que mudou Pernambuco (junho)

Se você revisitar a história pernambucana, vai encontrar a economia da cana-de-açúcar como causa da elevação de Pernambuco ao patamar de a mais próspera capitania da colônia. A monocultura canavieira, no entanto, a par de produzir riquezas, inibiu nosso espírito empreendedor. Indústrias, cingidas praticamente a tecidos e fumo, quase não existiam, exceto duas usinas de açúcar. O mais era insignificante, do ponto de vista econômico, e empresarialmente amadorístico. Mesmo assim, com os pés fincados no solo árido do atraso, Pernambuco tinha a visão focada no desenvolvimento. O comercio, por seu turno, não diferia do cenário industrial. O significativo era controlado pelos estrangeiros, o irrelevante, pelos brasileiros. Isso, contudo, não se esgotaria aí. Os dourados anos 1950 assistiram ao nascimento de importantes iniciativas brotadas do clima desenvolvimentista da época, como a Sudene, embora ainda mais importante haja sido a concertação política que resultou no movimento Frente do Recife. O sonho de…

Compartilhe

Arquivo

Memória: Recife em chamas (maio/2016)

Hoje perdido nos confins da história, o incêndio de Roma castigou, severamente, as áreas mais povoadas da cidade. São muitas as hipóteses para tal acontecimento, pontificando, contudo, a que se baseia no fato de que os moradores, cujas habitações eram em sua maioria feitas de madeira, se valiam do fogo para se aquecer e preparar os alimentos. Por negligência, supõe-se, o fogo de uma dessas casas teria se alastrado e, com a infeliz coincidência do vento que soprava forte naquele dia, quase fazia desaparecer a cidade que então era a mais poderosa do planeta. A explicação mais corrente, no entanto, é a de que Nero, o insano imperador romano, em busca de inspiração para dedilhar sua harpa teria colocado fogo na cidade, intencionando reconstruí-la mais forte, graças a uma nova e majestosa arquitetura. Tal versão é sobejamente desmentida pelos historiadores, já que, atualmente é sabido, Nero sequer estava em Roma naquela ocasião. Ademais, ao ser…

Compartilhe

O pernambucano que alegrou o RJ (Abril/2016)

Nenhuma empresa, ou país, ou cidade, ou pessoa, nada, enfim, se desenvolve enclausurada em si mesma. Pernambuco, por exemplo, tem muito dos seus feitos lastreados em mulheres e homens vindos de outros Estados, que aqui se fixaram. É a troca de saberes com que todos ganham. É como ensina o provérbio chinês: “Se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um com um pão, e, ao se encontrarem, trocam os pães, cada um vai embora com um pão. Já se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um com uma ideia, e, ao se encontrarem, trocam as ideias, cada um vai embora com duas ideias”. Pernambuco, pois, tanto quanto recebeu também já deu ao Brasil mulheres e homens excepcionais, e Pedro Ernesto foi um deles. Tenha o prazer de conhecer esse pernambucano especial. Nascido no Recife, estudou medicina no Rio de Janeiro, então a capital do Brasil, onde…

Compartilhe

O mais pernambucano dos alagoanos ou o mais alagoano dos pernambucanos?

Para ambas as questões a resposta é afirmativa. Aldemar Paiva é honra e glória de Alagoas e Pernambuco, protagonista de um inesquecível caso de dupla naturalidade. Caso começado cedo, diga-se, quando ele, militar, foi transferido de Maceió para o Recife. Aqui, dia a dia, se foram distanciando os sons das ordens-unidas, dando lugar aos que vinham da Rádio Clube de Pernambuco. Foi naquela emissora que ele deu os seus primeiros passos como radialista e, para começar, enfrentou a árdua missão de substituir ninguém menos que Chico Anysio. Deu conta do recado, e com perfeição. Tanta, diga-se, que de lá para cá só conheceu o sucesso, tornando-se um dos mais disputados profissionais do mercado, inclusive fora do meio radiofônico. Afora haver sido produtor, apresentador e diretor artístico da Rádio Clube de Pernambuco, ele teve igual sucesso nas rádios Tamandaré e Jornal do Commercio, na TV Rádio Clube, onde foi diretor de…

Compartilhe

Reflexões pós-carnavalescas

Mais um Carnaval se foi, levando consigo os quatro dias de alegria contagiante. Nas ruas, hoje desnudas de confetes e serpentinas e órfãs de sorrisos escancarados, ecoam – ainda bem que o melhor de tudo não se foi – os acordes dos nossos frevos mais belos. Vassourinhas, por exemplo, de Matias da Rocha e Joana Batista Ramos, composto há mais de 100 anos, até hoje incendeia ruas e salões, parecendo trazer mais energia ao folião. A arte de Levino Ferreira não deixa por menos, com sucessos do naipe de A cobra está fumando, Diabo solto, Retalhos de saudade, e tantos outros sucessos. Lídio Francisco, mais conhecido como Lídio Macacão, ou ainda como O Conde de Guadalupe (bairro olindense), se faz presente com Escama de peixe, Três da tarde e Condessa, exibindo a indiscutível qualidade característica da sua obra. O que dizer de Zumba, havido pelo sociólogo Gilberto Freyre e pelo…

Compartilhe

Uma princesa negra

Nestes dias em que o preconceito racial insiste em contrariar a razão, convêm alguns esclarecimentos. Para começar, diga-se que as etnias – ou raças, se você preferir – possuem características que as diferem graças a fatores como a adaptação aos diversos ambientes onde os agrupamentos humanos viviam. Já que os negros são os mais atingidos pela discriminação, pergunta-se: você sabia que a etimologia da palavra África significa algo como ensolarado...? É na luz solar que se pode entender o porquê da pele escura. A pele branca é característica dos que vivem em ambientes onde o sol é menos intenso, não significando, pois, que ser branco implique alguma vantagem. Acontece que a pele clara faculta sintetizar a vitamina D com menos claridade, enquanto as pessoas de pele escura precisam de mais sol para sintetizar a mesma quantidade da vitamina. Se fosse possível transpor todos os brancos para a África e todos…

Compartilhe

O pai de todos. Ou quase

Genghis Khan, o guerreiro que conduziu os mongóis na conquista da maior extensão contínua de terras da história da humanidade, não foi só o homem que há cerca de 1,2 mil anos fazia o mundo tremer ante o tropel do seu exército. A partir do que hoje se conhece como a Mongólia, ele subjugou povos e festejou suas vitórias com golpes de aríete em cidadelas mais aconchegantes. Explica-se: nas campanhas militares daqueles tempos, o produto dos saques era dividido igualmente entre soldados e comandantes, porém todas as mulheres – mulheres jovens, bem entendido – eram, obrigatoriamente, pertencentes a Genghis Khan. Travavam-se, então, após as batalhas banhadas de sangue e sofrimento, as refregas prazerosas do sexo. O resultado é que, de tanto guerrear, o líder mongol espermatizou tantas mulheres – isso sem contar as esposas oficiais –, que, mais do que os muitos e magníficos feitos militares, ele realizou uma façanha…

Compartilhe

João Pernambucano: O que há em um nome?

Não está muito longe o tempo em que os apaixonados faziam serenatas para a mulher amada, que pelas frestas das venezianas faziam escapar suspiros de amor. Lá fora, sob o brilho da lua-cheia, o cantor, com seu fiel companheiro – o violão – colado ao peito, transformando, por essas artes que só o amor explica, batimentos cardíacos em compassos musicais. Violão, esse companheiro fiel, tem uma longa história a contar. Não indiscrições, mas o relato de uma longa caminhada na estrada do tempo. O começo teria sido há quase dois mil anos antes de Cristo, na antiga Babilônia, onde já se usavam instrumentos parecidos com o violão. No Egito e em Jerusalém, o povo usava um instrumento de cinco cordas também assemelhado ao violão, ao passo que em Roma, eram corriqueiras as serenatas ao som de um instrumento de bojo e cordas também parecido com o violão. O fato é…

Compartilhe

contato

Os campos acima em destaque são necessários