Marcelo Alcoforado

O virtuose que nunca tocou

Faz pouco mais de dez anos. Foi em maio de 2006. Um violino Stradivarius foi arrematado em um leilão nova-iorquino por US$ 3,5 milhões. Não é engano, não. É o que você leu, mesmo! Três milhões e meio de dólares, um valor que jamais fora alcançado por um instrumento musical em leilão. Estimada pelos especialistas em US$ 2,5 milhões, a surpreendente valorização foi consequência de uma acirrada disputa entre dois milionários que deram seus lances por telefone. Relembre-se, desde já, que o instrumento leiloado não era um violino qualquer. Era nada menos do que um Stradivarius fabricado em 1707 pelo luthier italiano Antonio Stradivarius. Em maio de 2015, outro instrumento da mesma marca, fabricado em 1699, fora vendido por cerca de US$ 2 milhões. Por que, você pode estar perguntando, o violino de 1699, mais antigo, alcançou preço menor do que o de 1707? A resposta é simples. O de…

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Temudo fala por si

Dia após dia, milhares de pessoas dos mais variados estratos sociais transitam pelo viaduto Joana Bezerra, a maioria esmagadora sem se dar conta de que o viaduto Joana Bezerra, é na realidade o viaduto Capitão Temudo. Você, possivelmente, é uma dessas pessoas. Capitão o quê? você tem razão de achar a afirmação muito estranha. Não só pelo fato de o nome correto não ser Joana Bezerra, mas por ser Capitão Temudo. Pois saiba que muito se tem a falar dele. Quem, afinal, foi o capitão Temudo? Foi um militar português que deixou o seu nome insculpido não só no viaduto Joana Bezerra, mas na história do Brasil e de maneira mais marcante na de Pernambuco. Você, de novo, se põe a cismar: Quer dizer que um militar português deu nome a um monumento brasileiro, genuinamente pernambucano! Quer saber por quê? André Pereira Temudo, o nome completo do capitão, acompanhou, em…

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Josefina, uma pianista de fina estampa

Inventado há mais de 300 anos, o piano, imortalizado nas mãos de gênios como Mozart, Chopin, Liszt, Rachmaninoff e Beethoven, e tantos outros que marcaram a música para sempre, se impôs ao tempo. Inventado pelo italiano Bartolomeu Cristofori, representou uma evolução do cravo, até então o principal instrumento dos anos 1700. Nascido no século 18, neste século 21, o piano continua a ser um dos principais instrumentos musicais, isolado ou como parte da orquestra, consequência lógica de sua versatilidade, amplamente aplicada na música ocidental. Daí ele ganhou o mundo e inaugurou um tempo em que, nos momentos de lazer, as pessoas se reuniam em saraus para apreciar músicas tocadas por instrumentos clássicos como piano ou violino. Foi uma época em que o piano reinaria absoluto e praticamente em todas as casas haveria um, confirmando a existência da “pianolatria”, como dizia o escritor Mário de Andrade. Na casa de Josefina Aguiar,…

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O que é brega? (por Marcelo Alcoforado)

Brega, aprendemos desde as lições primárias, substantivo e adjetivo de dois gêneros, é termo pejorativo, aplicável a que ou a quem não tem finura de maneiras; é cafona, de mau gosto, sem refinamento, de qualidade reles, inferior... Você acabou de ver algumas definições do respeitabilíssimo dicionário Houaiss, demonstrando que o termo é bem servido de depreciações. Brega, pensando bem, é mesmo uma palavra sem categoria. Para começar, sua origem é obscura, ainda de acordo com o Houaiss. Tão obscura, aliás, que, segundo outra hipótese, brega teria vindo dos prostíbulos nordestinos em que esse tipo de música tão peculiar embalava os romances de vida tão breve quanto o tempo que transcorria do convite ao quarto e, por fim, ao gozo. Há mais hipóteses. Como esta, por exemplo, que atribui a derivação do termo ao "Nóbrega" que dá nome à rua Manuel da Nóbrega, em Salvador – que ficava na região de…

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Internet

Xô, cabileira

Houve um tempo - sombrio tempo, saliente-se - em que as paredes de Pernambuco eram tomadas pela mensagem Xô, cabilera, parida como que a fórceps, em português capenga e de gosto deplorável. Era endereçada ao candidato Marcos Freire, que, segundo indicavam as pesquisas, era o virtual vencedor da eleição que se avizinhava, para governador de Pernambuco. Era preciso derrotar o esquerdista Marcos Freire, pois, não importando os meios. Na guerra, tudo é válido, certamente avaliavam, para afastar qualquer resquício de consciência. A cada dia mais a luta se acirrava, como se fossem batalhas campais travadas no campo aberto da opinião. A indignidade, por seu turno, atingia o ponto de superlativa baixeza, ao se forjar o que buscava ser o flagrante de um encontro clandestino da esposa do candidato, dona Maria Carolina Vasconcelos Freire, com o então deputado federal Fernando Lyra, destacado membro do estado-maior da campanha do amigo Marcos Freire.…

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O homem que mudou Pernambuco (junho)

Se você revisitar a história pernambucana, vai encontrar a economia da cana-de-açúcar como causa da elevação de Pernambuco ao patamar de a mais próspera capitania da colônia. A monocultura canavieira, no entanto, a par de produzir riquezas, inibiu nosso espírito empreendedor. Indústrias, cingidas praticamente a tecidos e fumo, quase não existiam, exceto duas usinas de açúcar. O mais era insignificante, do ponto de vista econômico, e empresarialmente amadorístico. Mesmo assim, com os pés fincados no solo árido do atraso, Pernambuco tinha a visão focada no desenvolvimento. O comercio, por seu turno, não diferia do cenário industrial. O significativo era controlado pelos estrangeiros, o irrelevante, pelos brasileiros. Isso, contudo, não se esgotaria aí. Os dourados anos 1950 assistiram ao nascimento de importantes iniciativas brotadas do clima desenvolvimentista da época, como a Sudene, embora ainda mais importante haja sido a concertação política que resultou no movimento Frente do Recife. O sonho de…

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Arquivo

Memória: Recife em chamas (maio/2016)

Hoje perdido nos confins da história, o incêndio de Roma castigou, severamente, as áreas mais povoadas da cidade. São muitas as hipóteses para tal acontecimento, pontificando, contudo, a que se baseia no fato de que os moradores, cujas habitações eram em sua maioria feitas de madeira, se valiam do fogo para se aquecer e preparar os alimentos. Por negligência, supõe-se, o fogo de uma dessas casas teria se alastrado e, com a infeliz coincidência do vento que soprava forte naquele dia, quase fazia desaparecer a cidade que então era a mais poderosa do planeta. A explicação mais corrente, no entanto, é a de que Nero, o insano imperador romano, em busca de inspiração para dedilhar sua harpa teria colocado fogo na cidade, intencionando reconstruí-la mais forte, graças a uma nova e majestosa arquitetura. Tal versão é sobejamente desmentida pelos historiadores, já que, atualmente é sabido, Nero sequer estava em Roma naquela ocasião. Ademais, ao ser…

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O pernambucano que alegrou o RJ (Abril/2016)

Nenhuma empresa, ou país, ou cidade, ou pessoa, nada, enfim, se desenvolve enclausurada em si mesma. Pernambuco, por exemplo, tem muito dos seus feitos lastreados em mulheres e homens vindos de outros Estados, que aqui se fixaram. É a troca de saberes com que todos ganham. É como ensina o provérbio chinês: “Se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um com um pão, e, ao se encontrarem, trocam os pães, cada um vai embora com um pão. Já se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um com uma ideia, e, ao se encontrarem, trocam as ideias, cada um vai embora com duas ideias”. Pernambuco, pois, tanto quanto recebeu também já deu ao Brasil mulheres e homens excepcionais, e Pedro Ernesto foi um deles. Tenha o prazer de conhecer esse pernambucano especial. Nascido no Recife, estudou medicina no Rio de Janeiro, então a capital do Brasil, onde…

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O mais pernambucano dos alagoanos ou o mais alagoano dos pernambucanos?

Para ambas as questões a resposta é afirmativa. Aldemar Paiva é honra e glória de Alagoas e Pernambuco, protagonista de um inesquecível caso de dupla naturalidade. Caso começado cedo, diga-se, quando ele, militar, foi transferido de Maceió para o Recife. Aqui, dia a dia, se foram distanciando os sons das ordens-unidas, dando lugar aos que vinham da Rádio Clube de Pernambuco. Foi naquela emissora que ele deu os seus primeiros passos como radialista e, para começar, enfrentou a árdua missão de substituir ninguém menos que Chico Anysio. Deu conta do recado, e com perfeição. Tanta, diga-se, que de lá para cá só conheceu o sucesso, tornando-se um dos mais disputados profissionais do mercado, inclusive fora do meio radiofônico. Afora haver sido produtor, apresentador e diretor artístico da Rádio Clube de Pernambuco, ele teve igual sucesso nas rádios Tamandaré e Jornal do Commercio, na TV Rádio Clube, onde foi diretor de…

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