Marcelo Alcoforado

Na frase, o caráter de Nilo Coelho (por Marcelo Alcoforado)

Faz muito tempo, somos abusados por políticos de todos os matizes e, para agravar o problema, cultivamos a crença de que tudo isso um dia passará. Enquanto não passa, os escândalos se sucedem, cada vez maiores e mais estridentes, induzindo uma pergunta que não quer calar: serão assim todos os políticos? A resposta é não, embora sejam cada vez mais raros os casos de conduta irretocável. Um homem vivido entre novembro de 1920 e novembro de 1983 honrou a classe política. Saiba o que ele fez em 60 anos de existência. Vale a pena. Para começar, quando ele chegou encheu de alegria o lar de Josefa e Clementino de Souza Coelho, grande proprietário de terras, comerciante e industrial renomado, então o maior acionista da Chesf. O menino estudou, graduou-se médico, mas logo foi seduzido pela política, elegendo-se deputado estadual para a legislatura 1947/1950 e, em 1951, deputado federal. Foi várias…

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A estrela da tarde (por Marcelo Alcoforado)

À tarde, uma moça bonita atravessava a rua e de um banco da praça Maciel Pinheiro se punha a contemplar a beleza em volta. Era uma praça bem cuidada e, o que era melhor, uma praça segura. Mas quem era aquela moça? Era Haia Pinkhasovna Lispector, uma ucraniana de família judaica fugida da Primeira Guerra Mundial. Aqui, no entanto, mudaria de nome, e com ele se tornaria famosa. Passaria a chamar-se Clarice. Clarice Lispector. Nascida a 10 de dezembro de 1920, aqui chegou ainda bebê. Viria a ser uma das maiores escritoras latino-americanas, embora as comparações feitas com outros escritores sempre levassem em conta o mundo. Clarice Lispector era comparada a ninguém menos do que Virginia Woolf, James Joyce, Katherine Mansfield, Jorge Luís Borges, Juan Rulfo e Machado de Assis. Aos 19 anos publicou o primeiro texto; o primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, aos 24, e dedicou a vida…

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Paraíba masculina, cabra macho, sim senhor! (por Marcelo Alcoforado)

O que você faria se visse uma maleta em um canto qualquer de um local público, muito movimentado? O guarda civil Sebastião Thomaz de Aquino fez o que lhe cabia: apanhou a maleta e tentou conduzi-la à seção de achados e perdidos existente no local. Não chegou ao seu destino. Deu alguns passos e a valise simplesmente explodiu. Em volta, o caos. Gritos, sangue, feridos e mortos. Naquela manhã de 25 de julho de 1966, a tragédia não se limitava somente à desclassificação na Copa da Inglaterra, ocorrida uma semana antes. Estava bem mais perto, no Aeroporto dos Guararapes. A maleta continha nada menos do que uma bomba destinada ao general Costa e Silva, então candidato a presidente da República, que viria ao Recife, mas, pelos caprichos da sorte ou por zelo de sua segurança, o avião em que viajava aterrissara em João Pessoa. O saguão do aeroporto parecia filme…

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Dominguinhos, o homem que se fez música

O dia 23 de julho de 2013 anoitecia em sua lenta caminhada para o fim. Antes de se esvair, no entanto, levou consigo, aos 72 anos, a vida de José Domingos de Moraes, o Dominguinhos, reconhecidamente o sanfoneiro mais importante do Brasil. Não há como duvidar. Quem o viu tocar, sabe que em suas mãos a sanfona se refestelava, como que sentindo estar em braços aconchegantes e bem junto ao peito de um homem em paz com a vida. Quais teriam sido os pensamentos de Dominguinhos nas horas que antecederam sua viagem para a eternidade? Os médicos diziam que ele estava minimamente consciente. Como a pergunta ficará para sempre sem resposta, o importante é saber que ele protagonizou uma história que merece ser contada. Muito cedo, como é comum a todo grande talento, o menino José Domingos de Morais foi seduzido pela música. O pai, afinador de acordeons e um…

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A voz que se alevantava (Por Marcelo Alcoforado)

Quando o Recife comemorou os 30 anos de existência do Salão dos Independentes, não se ouviu uma única voz, um sussurro sequer, a pronunciar o nome dele. Logo o nome dele, artista de méritos, um pintor, desenhista, ilustrador e, sobretudo, um escultor de especial talento. Estava configurada uma inominável injustiça, mesmo porque mais de que um artista, ele foi um defensor incansável da arte pernambucana. Já que se falou em injustiça, responda-se: o que é justiça? A resposta é relativamente simples: é o que está conforme o que é direito, o que é justo, incensurável. O reconhecimento do mérito de alguém faz, igualmente, parte do conceito de justiça. Então, pode-se dizer, sim, que justiça é a força moral de reconhecer o direito de cada um, vez que, somente através dela se alcançará a paz. Carlos de Hollanda, o injustiçado, ou para os que quiserem adocicar a verdade, o esquecido, organizou…

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Divulgação

Você conhece Luiz Armando Queiroz?

Certamente, sim, mas você não liga o nome à pessoa. Melhor dizendo, não liga os nomes à pessoa. Assim mesmo, no plural. Afinal ele já foi Beto, Tuco, Belchior, Cláudio, Agripino, Duda, Douglas Fabiani, Adolfo, Júlio, Afonsinho Henriques Mourão, Tito Moreira França, Cândido, Tenente e dezenas de outros personagens que imortalizou em telenovelas, filmes e peças teatrais. O resultado é que ele enriqueceu a arte cênica brasileira, como você irá constatar mais adiante. Novelas, programas e especiais, por exemplo, foram diversos. Na Globo, Selva de Pedra foi o primeiro, em 1972. Em seguida vieram A Grande Família (a primeira comédia de costumes da Globo), Cuca Legal, Pecado Capital, Estúpido Cupido, Nina, Sinal de Alerta, Dinheiro Vivo, Memórias de Amor, Olhai os Lírios do Campo, Plantão de Polícia (participação especial), O Resto é Silêncio, Os Imigrantes, As Cinco Panelas de Ouro, Avenida Paulista, Nem Rebeldes nem Fiéis, Os Imigrantes: Terceira Geração,…

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Frei Caneca: Morte e vida de um herói e mártir

Naquele 13 de janeiro um herói pernambucano inscreveria seu nome na história do Brasil. Desde cedo estava armado o triste espetáculo da demonstração de força pela forca. O cadafalso estava em frente ao Forte das Cinco Pontas, escancarado, para que todos o vissem. O condenado era um religioso despojado dos seus trajes sacerdotais. Era um tempo de poder incontrastável mas, mesmo assim, três carrascos, homens acostumados a exterminar outros, se recusaram a enforcá-lo. Os militares, então, diante da desobediência dos verdugos, ordenaram que fosse formado um pelotão de arcabuzamento. Só para lembrar aos mais esquecidos, arcabuz era, digamos, o equivalente ao fuzil de hoje. Teria ocorrido ao comandante da execução que, ao fim, o espetáculo teria mais impacto, já que haveria a tenebrosa sonoplastia dos disparos? O fato é que cessados os estampidos, o corpo foi colocado à porta de um templo carmelita existente no centro do Recife, em seguida…

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Rogaciano Leite, a história de uma vida

Pergunta-se: qual é a probabilidade de dar certo um filho de agricultores nascido em 1920, em Itapetim, Sertão de Pernambuco? É bem pequena, admita-se, embora não impossível. Pelo menos não foi, quando nasceu Rogaciano Leite, no dia 30 de junho daquele ano. Quinze anos se arrastaram naquela cidade também conhecida por “Ventre Imortal da Poesia”, suscitando outra pergunta: o que poderia fazer naquele lugar modorrento o menino agora transformado em um rapazola magricelo? Fazer poesia, ora. Foi exatamente isso o que ele cuidou de fazer. E para dar início em grande estilo à carreira de poeta violeiro, desafiou, com apenas 15 anos de idade, recorde-se, o famoso e experiente cantador Amaro Bernardino. Ao final da cantoria conquistou o aplauso dos presentes, e sua fama começou a correr mundo, levando o dono com ela. No Rio Grande do Norte, ele fez uma sólida amizade com o poeta Manuel Bandeira, que lhe…

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A história de um vigário

No Recife Antigo, centro econômico brasileiro em parte do século 19, existe uma rua chamada Vigário Tenório. Lamentavelmente, poucos sabem quem ele foi. Para começar, defina-se que a palavra vigário define o religioso que, investido dos poderes de outro, exerce em seu nome suas funções. No uso informal, porém, de forma nada airosa, vigário é quem trapaceia, faz velhacaria, é vigarista, enfim. Tanto que na música Tamo aí na atividade (sic), a banda Charlie Brown Júnior canta Eu nasci pobre mas não nasci otário. Eu é que não caio no conto do vigário. Quer saber o porquê da expressão conto do vigário? Conta-se que no século 18 havia uma disputa entre os vigários de duas paróquia de Minas Gerais por uma imagem sacra. Um deles, então, para pôr fim à disputa, propôs amarrar a santa a um burro que estava solto na rua, exatamente entre as duas igrejas. A paróquia…

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