Joca Souza Leão

A última do português

Antigamente, as piadas eram de português, Juquinha e papagaio. Português burro, Juquinha safo e papagaio irreverente. Juquinha era um garoto esperto da idade da gente, suponho, porque ainda estudava com professora e não com professor como os meninos mais velhos do ginásio. “Quem desenhou isso aqui?” – a professora pergunta por perguntar, pois já sabia quem tinha desenhado o grande pênis no quadro-negro. “Vão todos para o recreio. Menos Juquinha!” – diz ela, trancando a porta da sala de aula. “Dessa vez, ele tá ferrado” – pensam os colegas. Passado algum tempo, abre-se a porta e sai Juquinha todo prosa, atacando a braguilha: “Nada como uma boa propaganda.” O “currupaco, paco” pontuava a fala do irreverente e sacana papagaio de anedota. Brasileiríssimo. Tanto latia, imitando cachorro pra afugentar ladrão de galinha (bons tempos, aqueles, em que ladrões roubavam galinhas), quanto imitava a fala da empregada assediada pelo patrão, para denunciá-lo…

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A crise de perto

Anos 50. O cronista Rubem Braga liga para o também cronista Otto Lara Resende e o convida para “ver a crise de perto”. Vão a um bar da Cinelândia, no centro do Rio. Tomam chope, comem salsichão com muita mostarda e dão a crise por vista. Por essa época, no Recife, meu pai tinha o que ele, bacharel em direito, chamava de “crise de coceira”, que não era outra coisa senão uma coceira danada nas mãos. “Histamina”, dizia ele sem medo de errar, apesar de a medicina nunca ter tido a chance de confirmar seu diagnóstico nem os anti-histamínicos, receitados por ele próprio, davam conta do recado. O jeito era coçar. E ele coçava com vigor com uma escova de cabelo que tinha sido de minha mãe, há muito tempo transformada em “escova-de-coçar”. Contei essa historinha, caro leitor, apenas para dizer que a palavra crise me é familiar desde que…

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