Joca Souza Leão

O dono da história (por Joca Souza Leão)

O dono da história é o contador da história. E o chato é o sujeito que interrompe o contador pra corrigir a história: “Não foi assim não. Nem foi com fulano, foi com beltrano.” Alguns não se contêm e dizem, até, “eu tava lá”. É de lascar! Além de chato, mentiroso. E mentiroso no mal, aliás, no pior dos sentidos, porque mentiroso no bom sentido é o contador de história que mente sem prejudicar ninguém, sem atrapalhar a história dos outros nem tirar vantagem alguma, além da admiração de todos pela sua narrativa. Mentira do bem só tempera e torna engraçada ou dramática história que era insossa, sem graça ou sem drama algum. Toda cidadezinha do interior tinha (e algumas ainda devem ter, acho) as figuras oficiais, consagradas e reconhecidas por todos pelos seus feitos ou desfeitos, mandos ou desmandos: o doido, o bêbado, o carola, o herege, o profeta,…

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Sonho meu (por Joca Souza Leão)

Manuel Bandeira disse que queria ir-se embora pra Pasárgada porque lá, entre outras coisas, tinha telefone automático. Bandeira vivia (e viveu a vida quase toda) no Rio. Início dos anos 20, quando escreveu o poema, tinha-se que girar uma manivela, que ficava na lateral do telefone, para pedir à telefonista da central telefônica para conectar com quem se desejava falar. Nos anos 50, na casa da minha vó Carmem, aqui, na Rua José de Alencar, tinha um telefone desses de manivela. Já aposentado. E como não era, ainda, considerado antiguidade, não tava lá como peça de decoração. Vai ver, instalaram o automático e esqueceram o velho na parede. Servia pra gente brincar de telefonar, girando a manivela. Desde que me entendo por gente, telefone é automático no Recife. Só fiquei sabendo que era analógico quando virou digital. A gente discava. Agora, digita. Às vezes, demorava um segundinho para dar linha.…

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Dança comigo? (Por Joca Souza Leão)

Era uma luta. Travada em vários ringues e rounds. Esse negócio de dançar solto, que nem hoje, um fazendo moganga na frente do outro, é fácil. Quero ver dançar junto (agarradinho, então, nem se fala) como era naquele tempo. Um pro lado, dois pro outro e uma voltinha. Samba-canção e bolero. No ritmo. Conduzindo a dama. Sem lhe pisar o pé – o que seria uma tragédia. Mas, entre todas as tragédias, a da pisadela não era a maior. Maior, muito maior, era que a moça, ao ser tirada para dançar, estava sentada à mesa e se, ao levantar, fosse mais alta do que eu? Também era possível, e, por vezes, até, previsível, levar um golpe certeiro: o corte. “Dança comigo?” “Não, obrigada.” A turma da Rua Nicarágua (meu irmão Caio, Zé Fernando, Bel e Arlindinho) ia pras festas e eu ia na onda (melhor, ia à luta). Português, Internacional,…

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Papo de cronista (por Joca Souza Leão)

Rubem Braga Passou a noite enchendo a cara com o Diabo; os dois saíram do bar dia claro. – Vai pra onde, Rubem? – Vou dormir. E você? – Vou à missa... Antônio Maria Leitora: Meu marido sua muito no sovaco. Que devo fazer? A.M.: Divirta-se na área enxuta. João Antônio Morreu Esdras Passaes, amigo de João: – Matou-se de viver e de beber. Rachel de Queiroz – Meu maior desejo para o Ano Novo é prosperidade, paz, saúde, essas coisas. Mas minha vontade mesmo é olhar para o ano de frente e lhe dizer na cara: te dana! Lourenço Diaféria O sargento Sílvio morreu ao pular no poço das ariranhas no zoo e salvar uma criança de 14 anos. – Prefiro esse sargento herói ao Duque de Caxias. Mário Prata –A principal diferença entre a revista Playboy americana e a Playboy brasileira não é a língua. É a bunda.…

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Ele acordou

Ó só o filme qu’eu vi na TV outro dia. Pra variar, não sei o título. Quando zapeei, já tava rolando. A história de um cozinheiro, melhor, chef, inglês. O bonitão, aí na faixa dos trinta e alguma coisa, três estrelas do Guide Michelin, fazia o maior sucesso com um restaurante chic em Paris. Mas, aí, pira. Álcool e drogas. Perde tudo. Grana, estrelas e restaurante. Vai tudo pro vinagre. Nova York. Subempregos para manter álcool e pó. Vira, entre outras coisas, fritador de hambúrgueres no Madison Square Garden. E come o pão que o diabo amassou. Fundo do poço. Até que pinta sua última chance. Londres. Como nos filmes clássicos Os sete samurais e Sete homens e um destino, reúne os melhores profissionais de cada especialidade. No caso, os cães chupando manga da haute gastronomie. Da sous-chef (uma francesinha por quem ele se derrete) ao chef de partie, passando…

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Bunda pra cima, não!

Taí uma coisa que você nunca vai ouvir um coroa dizendo que os de antigamente eram melhores do que os de hoje: tira-gosto de bar. Nos anos 50/60, no Bar Savoy – o do poema de Carlos Pena (“são trinta copos de chope, são trinta homens sentados...”) – tira-gosto era ovo cozido (com sal, num pires, pro freguês, após tirar a casca, salgar) e coxinha (enfadada, seca, por vezes dormida). Lembro vagamente de um sanduíche de pernil. Mas, quem tinha coragem? Carne de porco sem refrigeração? O diabo é que comia. Talvez tivesse queijo-prato e presunto em cubinhos, no palito. Não lembro. (Cartas à redação). Se o local fosse bar e restaurante, havia a chance de sair um filezinho ao palito com fritas (pelo preço do filé servido como refeição) e frango à passarinho. Caldinho de feijão foi uma grande novidade. (Acho, até, que foi inventado aqui no Recife nos…

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Por uma peinha de nada

2016. O ano em que quase virei um vira-casaca. Como você e todo mundo, caro leitor, eu também sei pouco, muito pouco, sobre a Islândia. Mas, por algum motivo, não sei qual, sabia-lhe a capital e, até mesmo, como se escreve: Reykjavík. Dessa Islândia de ouvir-dizer, fiquei sabendo um pouco mais com a transmissão da televisão portuguesa do jogo da Eurocopa em que os islandeses bateram os ingleses por 2 a 1 (se não me falha a memória, em julho). “A Islândia tem pouco mais de 300 mil habitantes e cerca de 10% deles, 30 mil, estão aqui em Nice, na França, dando um verdadeiro show de alegria e civilidade, torcendo por sua boa, ótima seleção”, dizia o speaker, num jogo que narrava sem nenhuma imparcialidade, mas declarada torcida. E quem nas arquibancadas não torcia pela Islândia? No final, acho, até os ingleses. No intervalo, a TV portuguesa exibiu um…

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Meninos do Recife

O primeiro “serviço de extinção de incêndios” do Brasil surgiu aqui, no Recife. O do Rio de Janeiro foi inaugurado por Pedro II mais de 100 anos depois. Lembrei-me desse fato sem muita, ou nenhuma, importância – veja você como são as coisas do pensamento – porque me lembrei do poema Evocação do Recife, de Manuel Bandeira: (...) De repente nos longos da noite um sino Uma pessoa grande dizia: Fogo em Santo Antônio! Outra contrariava: São José! Eram os sinos das igrejas que chamavam os bombeiros e informavam ao povo o bairro que o fogo queimava. Sinos de São Pedro dos Clérigos, do Carmo e do Livramento? Incêndio em São José. Esse poema foi encomendado a Bandeira por Gilberto Freyre. “Encomendado como quem encomenda um pudim” – diria Gilberto em tom jocoso anos depois. Mas, pudim de quê? Ah! aí é que tá. Quem encomendou tinha outras receitas do…

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No tempo das diligências

Filmezinho de cowboy preto e branco, fim de noite, nada mal. Nem sei o título. Já estava rolando quando zapeei. Não era com John Wayne nem dirigido por John Ford, porque quando é dirigido por John Ford a gente sabe logo pelos planos-sequência e travellings. Os mocinhos defendiam a construção da estrada de ferro no velho oeste e os bandidos a boicotavam: explodiam pontes, provocavam descarrilamentos e avalanches. E os índios estavam a favor dos bandidos. O que não é nenhuma novidade em filmes de cowboy. Bandidos e índios lutando por causas com algum mérito é que era novidade. Bandidos defendendo os empregos de milhares de pais de família honestos e índios lutando pela preservação do meio ambiente, ambos ameaçados pela chegada da estrada de ferro. Quando era menino – até a adolescência, acho – a gente não via a tecnologia como ameaça de nada. Ao contrário. Tecnologia era um…

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