Beatriz Braga

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Transe e deixe transarem

Max morava ao lado do bar em que estávamos. Ele, com seu micro short prateado brilhante, jaqueta cinza e longos cabelos loiros, desceu para dar uma olhada no movimento da madrugada. Elogiei o look e viramos amigos. Mais cedo, um homem tranquilamente caminhava na rua vestindo apenas uma espécie de cueca descolada em um dia ensolarado. Na porta de uma loja, o aviso: “São Francisco aceita todo o tipo de gente”. O alerta chamava imigrantes sem documentos, qualquer raça, orientação sexual, gênero… “Seja quem for, você está seguro aqui”, completava. Esta cidade é uma aula de convívio para o mundo. Nos bares, nas ruas, vemos casais gays, héteros, poliamor. Jovens e pessoas mais velhas frequentam as mesmas baladas na madrugada. É uma explosão de diversidade de cor, origens e carinho. Max nos disse que SF é assim porque, em algum lugar, os “weirdos” tinham que se agregar. A minha aposta…

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O contrário do feminismo é a falta de coragem (por Beatriz Braga)

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie decidiu, ao perceber o peso do rótulo “feminista”, ironicamente se intitular “feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma e não para os homens”. Já a autora americana Roxane Gay foi mais concisa. Se autodeclarou “má feminista” e tem um livro com esse nome. Vivemos em um mundo que nos enxerga como potes de margarina. Amamos rotular e definir categorias para que possamos nos agrupar. Mas somos ruins nesse ofício. A começar por presumirmos que a humanidade inteira se encaixa em duas classificações: homem e mulher. [caption id="attachment_14748" align="alignnone" width="300"] Chimamanda Adichie percebeu o peso do rótulo de ser feminista[/caption] Outro fato é que as pessoas enxergam “machista” como o contrário de “feminista”. Vejo mulheres recusando a alcunha e homens assumindo o machismo porque ou se é um ou se é o outro.…

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Cecilia Silveira

Ascenderam a luz (por Beatriz Braga)

Eu estava na Espanha, num metrô lotado, quando um homem grande e forte se aproximou como se tentasse ocupar um lugar mais próximo à porta. Senti a mão suja dele alisar minha coxa e tentar se aproveitar da saia que eu usava. Assustada, com nojo, desci na próxima parada e decidi andar alguns quarteirões imaginando, a cada beco, o que aconteceria se o encontrasse em uma rua vazia. Veja, leitor(a), eu sou privilegiada. Branca, classe média e hétero em um país racista, desigual e homofóbico. Eu sei, porém, que habitar esse mundo para todas nós, sempre será, no mínimo, extremamente desconfortável. A Justiça brasileira acaba de soltar (e prender de novo) um homem que havia ejaculado numa mulher no ônibus sob a justificativa de não ter havido constrangimento. Há poucos dias, a escritora Clara Averbuck relatou o assédio que sofreu no Uber. “O mundo é um lugar horrível para ser…

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Vítima, substantivo feminino (por Beatriz Braga)

“O estupro fica na vagina”. A frase escrita por Naomi Wolf ecoa repetidamente na minha cabeça. A cada duas horas e meia, uma mulher é vítima de estupro coletivo no Brasil, segundo dados revelados pela Folha de São Paulo no último domingo. Os números são absurdos e eles ainda correspondem a uma pequena parte da realidade. Estima-se que apenas 10% dos casos de estupro sejam registrados (Ipea). Acima dos dados existe o medo, a vergonha e a lógica irracional de culpar a vítima. Acima do medo - e da certeza do silêncio - existem homens se reunindo com outros homens e devastando a vida de milhares mulheres. No livro Vagina - uma biografia, de Wolf, a escritora discorre sobre o sistema nervoso feminino que, segundo sua pesquisa, liga o cérebro e a região genital de maneira mais intensa do que acontece com os homens. A vagina se conecta ao primeiro,…

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Grãos – Como criar uma filha feminista – Por Beatriz Braga

Ela é ainda um grão e eu já espero tanto dela.  Eu sou deliberadamente apaixonada pelo futuro. Acredito no potencial de renovação de cada geração e cada vez que alguém especial engravida, meu coração fica mais esperançoso. Quando ela me disse que estava carregando um ser do tamanho de um grão de lentilha no ventre, imaginei o longo caminho de transformação que ele ainda passaria e desejei que fosse leve. O ser ainda não tem rosto ou pés, mas tenho certeza que o que espera por ele é grandioso: uma noção de respeito e incentivo. Se fosse homem, aprenderia a respeitar desde o começo e seria incentivado a ser o que quisesse, a aceitar suas características femininas e a se desprender desse conceito de “homem macho”. Sendo mulher, aprenderia a exigir respeito, ser independente e a se amar. Quem sabe, um ou outro, aprenderiam a ser livres e ajudariam a…

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CSilveira/Campanha Chega de Fiu Fiu

Todas as Marias (Por Beatriz Braga)

A pior ligação que já recebi foi num domingo à noite quando ela, do outro lado da linha, procurava algum conforto do lado de cá. Entre gritos e choros, minha amiga tentava dimensionar a agressão do namorado que acabara de acontecer. “Um monstro”, concluímos. Não sei o que doeu mais: ouvir tudo aquilo ou vê-la voltando para o relacionamento um tempo depois. Ela é dessas mulheres cheias de energia, maravilhosa. O cara é daqueles boa-praça, que todos adoram, aparentemente um homem bacana. Provavelmente doeu mesmo foi quando percebi que estávamos enganadas. Ele não é um monstro. Monstros são anomalias, deformidades, seres contrários à natureza. Ele é um homem comum, “de bem”, desses que circulam nas festinhas, popular. E são exatamente caras como ele que protagonizam os piores dias da vida das mulheres ao meu redor. Não são corcundas, não têm caras peludas e não vivem em cavernas. No dia 7…

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De clichê nós entendemos (Por Beatriz Braga)

Certa vez, uma amiga - que havia ganhado uns quilos na época - me contou que não conseguia chegar perto de revistas femininas. Disse-me que só o faria depois que voltasse a emagrecer. De tortura, falou, já bastava a vida real.  Mulheres seminuas de corpos inatingíveis em propagandas de sapatos, bolsas, óculos de sol. O que vale é vender um padrão de beleza inalcançável e a ilusão de que a marca pertence a ele. Nos últimos dias, a entrevista polêmica de Washington Olivetto virou trends topics, ao mesmo tempo em que a agência Think Eva lançou o estudo Compromisso Inegociável sobre o feminismo na comunicação. Na entrevista, um dos mais reconhecidos publicitários do país compara mulheres a porsches e diz que “empoderamento feminino” é um clichê constrangedor. Eu concordo que exista oportunismo no setor publicitário e muitas vezes o serviço prestado seja precário. Mas o novo feminismo vai muito além de…

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Judith, a irmã que Shakespeare nunca teve (por Beatriz Braga)

Não lembro da primeira vez em que ouvi o nome de Albert Einstein, porque, assim como uma grande lista de homens importantes, ele sempre esteve na minha vida. Recentemente, porém, ouvi pela primeira vez o nome de Mileva Einstein na série Genius, nova produção da Nat Geo. [caption id="attachment_13332" align="aligncenter" width="300"] Série Genius[/caption] Ele, um aluno desregrado com ideias brilhantes. Ela, a única mulher do curso de matemática da Escola Politécnica de Zurique e uma das mentes mais inteligentes dali. Conheceram-se, engravidaram, casaram-se. Ela largou os estudos para ser mãe. Ele criou a Teoria da Relatividade. Entre os choros de bebê e as noites em claro, Mileva revisava e trabalhava nas ideias do marido. Apesar de muitos estudos históricos (há também os que refutam essa ideia) apontarem sua participação como muito necessária para a Teoria, seu nome apareceu como coautora na primeira versão e depois foi esquecido. “Você não precisa…

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Cinco palestras que você vai gostar de assistir (por Beatriz Braga)

Hoje comecei o dia ouvindo, mais uma vez, a palestra de Shonda Rimes, produtora de séries de TV como Grey´s Anatomy e How to get away with murder, no TED (www.ted.com). Ela conta sobre o acordo que fez consigo mesma de, por um ano, dizer “sim” para todas as situações que a assustavam. “Para qualquer coisa que me deixasse nervosa, e me tirasse da minha zona de conforto, eu me forcei a dizer sim”. As consequências foram incríveis. Sempre quando ouso me desanimar diante de um começo de semana, vou atrás desses vídeos para resgatar o gás. O TED nunca me decepciona. Por isso, sempre deixo algumas das suas palestras baixadas no celular e, volta e meia, escuto essas vozes poderosas. Assim o dia ganha mais força. E eu também. Aqui seguem seis dicas de palestras inspiradoras de homens e mulheres que têm muito a dizer. Está sem tempo? Faz…

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